quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lost in translation

"Os dias vão passando, eu me acalento e digo muitas vezes, como um refrão interminável: fique bem. Seja feliz seria demais. (...) Eu não sigo. Fico aqui parada, com as rodas emperradas naquele tempo que não volta. Suspiro e penso: fique bem, Letícia. Só por hoje eu não vou chorar, primeira regra dos recém abandonados. E amanhã? Um dia depois do outro e toda essa estupidez sobre o poder curativo do tempo. O tempo só nos torna mais cínicos. Amanhã não sei, hoje está péssimo. (...)"

Mas ela anda tão ocupada que só se lembra dela mesma à noite, meia hora antes de desmaiar. A dor de cabeça é grande depois de um dia inteiro de afazeres e preocupações, mas é infinitamente menor do que a dor do vazio dentro do peito, a dor de não ter nada pra sentir. Ela lava o rosto, tira a roupa, se embrulha e deixa o peso das pálpebras comandar o resto do corpo. Amanhã quanto mais ocupada ela se mantiver, melhor. E a agenda já está cheia até o final do mês.
Que venham mais dores de cabeça no fim do dia.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Um dia desses

Ela olhou pro lado e pensou:
-Já chega. Fiz o que tinha que fazer. Não depende mais de mim.
Entrou em casa e decidiu sair só daqui a dois anos.
Fim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

?

Qual a sensação de amar? E a de ser amado?
Não sei. Nunca senti. Se senti, não me lembro.
Na próxima vida, quem sabe.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Vestido Estampado

"...pegue o vestido estampado,
guarde pro carnaval,
guarde que eu nunca te quis mal
até o feriado quarta-feira de cinzas
e tá tudo acabado."

Ana Carolina

domingo, 11 de setembro de 2011

De cara lavada

Hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos


Martha Medeiros

Clarice

"Existir é tão completamente fora do comum que, se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos...

A solução para esse absurdo que se chama 'eu existo', a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista."